Experiência de quase morte (EQM): é possível saber se a vida acaba depois da morte?

Você já deve ter ouvido algo semelhante a isso: “ninguém sabe o que acontece depois da morte. Afinal, nunca ninguém morreu e voltou para contar”. Contudo, cientificamente, não é bem assim. O termo EQM (experiência de quase morte) é uma das maneiras de saber o que há “do outro lado”.

Você já deve ter ouvido algo semelhante a isso: “ninguém sabe o que acontece depois da morte. Afinal, nunca ninguém morreu e voltou para contar”.  Contudo, cientificamente, não é bem assim. O termo EQM (experiência de quase morte) é uma das maneiras de saber o que há “do outro lado”. 

Essas experiências ocorrem entre 12% a 18% dos sobreviventes de paradas cardíacas (Greyson, 2003a; Parnia et al., 2001; van Lommel et al., 2001). Ou seja, entre as pessoas que apresentam morte clínica (ficam sem batimentos cardíacos e sem atividade elétrica cerebral) e são ressucitadas por procedimentos medicos, até 18% delas conseguem contar o que viram e sentiram enquanto estavam mortas!

As EQMs tipicamente produzem mudanças positivas em atitudes, crenças e valores, mas também podem levar a problemas interpessoais e intrapsíquicos que foram comparados a vários transtornos mentais, mas diferem substancialmente desses quadros psicopatológicos.

Moody (1975) Introduziu o termo experiências de quase-morte (EQM) com as seguintes características:

  • Inefabilidade (aquilo que não pode ser exprimido por palavras).
  • Ouvir o anúncio da própria morte
  • Sentir envolventes sentimentos de paz, 
  • Ouvir um ruído
  • Ver um túnel
  • Sentir estar fora do corpo
  • Encontrar-se com seres não-físicos,
  • Encontrar um “ser de luz”
  • Realizar uma revisão da vida
  • Retornar à vida e passar pela experiência de contar aos outros sobreessa vivência
  • Ter novas visões da morte
  • Ter comprovação de conhecimentos não adquiridos por meio da percepção normal

(EQMs) são relevantes para o médico interessado no bem estar de seus pacientes pois produzem mudanças nas crenças, nas atitudes e nos valores das pessoas que passam por esta experiência e, por fim, porque podem ampliar a nossa compreensão em relação ao fenômeno da consciência.

Como se explica a EQM? 

Basicamente, há 2 linhas de compreensão destes fenômenos. 

A primeira não admite a existencia de uma consciência extracerebral. Compreende a EQM como um fenômeno biológico produzido pelo próprio cérebro durante o processo da morte ou como produto da imaganição do paciente (Greyson, 1983b; Rodin, 1980).

Já a segunda linha entre a EQM como evidência de que a consciência existe fora do cérebro e, portanto, persiste após a morte.

As comparações de relatos de EQMs de diferentes culturas sugerem que as crenças prévias têm alguma influência no tipo de experiência que uma pessoa relatará, se vivenciar uma situação próxima à morte (Kellehear, 1993). Entretanto, não está claro se as crenças culturais afetam a experiência propriamente, ou simplesmente afetam a sua recordação e a sua reprodução verbal, ou mesmo a classificação dos pesquisadores diante do relato dos sujeitos.

Freqüentemente indivíduos relatam EQMs que se opõem a suas expectativas religiosas e pessoais específicas em relação à morte (Ring, 1984). Além disso, os indivíduos que não tiveram nenhum conhecimento prévio sobre EQM descrevem o mesmo tipo de experiência que as pessoas que têm familiaridade com esse fenômeno; as crianças pequenas, que são as menos prováveis de terem desenvolvido expectativas sobre a morte, relatam uma EQM com características similares às dos adultos (Bush, 1983; Gabbard e Twemlow, 1984; Herzog e Herrin, 1985; Morse et al., 1985; Serdahely, 1990). A cultura funcionaria então mudando a maneira como o indivíduo interpreta a experiência e não no núcleo da experiência.

Quase todos os estudos foram retrospectivos, ou seja, planejados através de entrevistas após os pacientes apresentarem o fenômeno. Isso implica em dúvidas sobre a confiabilidade nas memórias relatadas (French, 2001).

Para testar a confiabilidade dos relatos dos pacientes que passaram por uma EQM, Greyson (2007) administrou a escala de EQM, uma medida quantitativa, aos mesmos indivíduos em duas ocasiões, com um intervalo de aproximadamente 20 anos. Não foram encontradas evidências de que os indivíduos que passaram por uma EQM romantizam seus relatos com o passar do tempo. Não se verificou nenhuma diferença estatística significativa entre as pontuações da escala de EQM nos dois momentos  de aplicação da escala.

Alterações nos gases sanguíneos:

EQMs ocorrem sem anóxia ou hipóxia, como em doenças não-fatais e em acidentes

que quase ocorreram, dos quais o indivíduo sai ileso. Whinnery (1997) comparou as EQMs aos devaneios que ocorrem durante os períodos breves de inconsciência induzidos por aceleração rápida em pilotos de caça, embora tenha referido que seu modelo não explica todos os fenômenos de EQM. 

Também se deve observar que as EQMs não incluem sintomas típicos de hipóxia, tais como convulsões mioclônicas, amnésia retrógrada para os eventos ocorridos antes da perda de consciência, movimentos automáticos, efeitos da memória, formigamento nas extremidades e em torno da boca, confusão e desorientação após despertar, assim como sensação de não conseguir movimentar o corpo ao acordar. 

A hipóxia ou a anóxia produz geralmente alucinações idiossincrásicas e assustadoras e conduzem o indivíduo à agitação e à agressividade, estados completamente diferentes dos sentimentos de paz que são consistentes e universalmente descritos em EQM.

Hipercapnia: por fim, se a anóxia e hipercapnia representam um fator importante para as EQMs, as EQMs deveriam ser muito mais comuns do que as observadas após parada cardíaca (Kelly et al., 2006; van Lommel et al., 2001). Além disso, as características das EQM raramente estão presentes em casos de hipercapnia. 

Alucinações tóxicas ou metabólicas:

Muitas EQMs são descritas por indivíduos que não estavam comdisfunções orgânicas nem metabólicas que pudessem causar alucinações, assim como pacientes que recebem medicação, na verdade, referem menos EQMs do que os pacientes que não a recebem (Greyson, 1990; Osis e Haraldsson, 1977; Sabom, 1982).

Além disso, o mau funcionamento cerebral, do ponto de vista orgânico, produz geralmente turvação da consciência, irritabilidade, medo, agressividade e visões idiossincráticas, bastante diferentes do pensamento claro e de sentimento de paz, calma, e conteúdos previsíveis típicos da EQM. 

Os pacientes febris ou anóxicos, quando próximos da morte, referem menos EQMs e experiências menos elaboradas do que os pacientes que não estão fazendo uso de fármacos e que não estão febris nem anóxicos (Osis e Haraldsson, 1977; Ring, 1980; Sabom, 1982).

Neuroquímica:

Outra especulação são as endorfinas (opióides endógenos liberados sob estresse). Entretanto, as endorfinas produzem alívio da dor e sensação de bem-estar que persiste por horas, ao passo que nas EQMs a paz e a cessação da dor são sentidas de forma breve, freqüentemente por alguns segundos. quetamina (a existência desse agente é uma hipótese ainda não comprovada)

pode ser liberado em condições de estresse, agindo nos receptores do N-metil-D-aspartato (NMDA). 

A quetamina pode provocar sentimentos de se estar fora do corpo e algumas sensações como se sentir atravessando um túnel escuro em direção à luz, acreditar que morreu ou que está se comunicando com Deus (Jansen, 1997). Entretanto, as experiências com quetamina geralmente envolvem imagens bizarras e assustadoras, normalmente reconhecidas como ilusões (Fenwick, 1997), e nos achados sobre EQM geralmente as experiências são relatadas como prazerosas, felizes e “mais reais que o real”.

Neuroanatomia:

Vivências semelhantes a uma EQM, quase nunca são observadas em convulsões do lobo temporal (Devinsky et al., 1989; Rodin, 1989), e a estimulação elétrica dos lobos temporais pode desencadear fragmentos de música, cenas isoladas e repetitivas que parecem familiares, audição de vozes, experiências de medo ou outras emoções negativas, visões bizarras, imagens oníricas, além de ampla escala de sensações somáticas que nunca foram relatadas em EQMs (Gloor,

1990; Horowitz e Adams, 1970).  Os relatos dos fenômenos induzidos por estimulação magnética transcraniana dos lobos temporais, que mostraram vaga semelhança com uma EQM (Persinger, 1994) 1994), não foram replicados e têm sido atribuídos à sugestão.

Modelo Multifatorial: 

O isolamento sensorial ou o mau funcionamento corporal resultaria sensação de se estar fora do corpo; em seguida, as endorfinas produziriam sensações de analgesia e de sentimentos de paz; e, finalmente, com o aumento progressivo da anóxia, o sistema visual ficaria comprometido e produziria a ilusão do túnel de luz, assim como os episódios epilépticos do lobo temporal estimulariam uma revisão da vida; enquanto as visões de pessoas falecidas e de outras dimensões são simplesmente alucinações produzidas pelas expectativas do indivíduo, sobre o qual acontecerá durante a morte (Blackmore, 1993; Saavedra-Aguilar; Gómez-Jeria, 1989; Greyson,B. / Rev. Psiq. Clín. 34, supl 1; 116-125, 2007)

Conclusão: 

As teorias propostas até o momento consistem basicamente de especulações sem embasamento, em relação a que pode acontecer durante uma EQM. Correlacionar um estado cerebral com uma experiência não implica necessariamente que esse estado cerebral seja a causa da experiência. Além disso, a interpretação proposta por alguns investigadores que promovem estudos neurofisiológicos de EQM (Kelly et al., 2006) é que o estado cerebral permite o acesso à experiência ou simplesmente a reflete. Desta forma, a teoria da consciência extracerebral implicando na persistência da consciência após a morte, mantem-se válida e coerente para a compreensão das experiências de quase morte.